segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

A Pedra Do Tempo


Não era só uma pedra. Era a pedra do tempo. Qualquer um que passasse pela tal pedra podia ver o tempo. Não o tempo do céu, não o tempo do relógio, mas o tempo. O tempo como um todo, sem segundos, nem milésimos, nem milênios, nem minutos, sem momentos nem instantes, nem grandes momentos nem pequenos instantes, todo o tempo, o tempo inteiro.
José Evaristo Machado, o seu Zé, que não era bobo nem nada, o cara mais esperto de sua cidadezinha no interior do Rio Grande do Norte, resolveu que aquilo que ele tinha visto numa caverna perto de sua casa não podia ficar escondido mas não podia ser revelado. Ele vira tudo sem entender nada, vira a babilônia, vira o fim do mundo, vira o início de tudo e o meio do nada.
Já Ernesto Silveira da Silva, o Nesto, achava que tudo aquilo não passava de balela mas tinha visto a pedra e não tinha visto nada. Mal sabia ele que pedra que é pedra não é pedra para qualquer um não, para uns é pedra e para outros é pedra do tempo. Para outros ainda é mineral, mas nesse caso só para os "dotô".
Aquilo já estava virando era maluquice. Quitéria de Farias Moreira Machado, dona Quiqui, mulher do seu Zé, disse que não tinha pedra nenhuma e que seu marido depois que perdera o filho em briga de famílias vinha vendo de tudo, de mula-sem-cabeça a saci-pererê, passando por essa pedra. Só que essa tal dessa pedra ele não largava de mão, não parava de falar nunca.
Mas Zé tinha certeza do que dizia. E o que dizia era que a pedra tinha sido de reis e rainhas, caciques e pajés. E dizia também que ela não tinha ido parar ali por causa de seu ninguém. Ela tinha ido para lá porque queria, de vontade própria, de caso pensado. E se ela lá estava e se tinha ele tinha visto o que vira era porque tinha alguma coisa nisso. Não haveria de ter visto tudo se houvesse de ter visto tudo.
Tanto fez, tanto falou, que chamaram o padre Pedro. Padre Pedro Pitanga Pereira ou Pedro Pitanga Pereira, o padre, como queiram, dizia ele. Um padre sensato que sabia que seus filhos precisavam de uma mãozinha de quando em vez.
Chegado o padre disseram-lhe que o Zé não estava assim muito bem do coco não. Andava dizendo umas coisas e não falava coisa com coisa. Pois bem, foi o padre Pedro bater um papo com o Zé para ver o que passava-lhe pela cabeça. Conversa vai, conversa vem. Foram umas boas horas com todo mundo se mordendo de curiosidade para saber o que que o Zé tinha na caixola.
E não é que o padre saiu-se de lá certo de que realmente o Zé estava dizendo a verdade, de que realmente vira tudo e ainda de que Deus havia querido que ele soubesse sabe-se lá por que motivo que o Zé soubesse o que agora sabe.
Convencida de que aquilo só podia ser sandice. Maria Fernanda Borges de Aragão e Castela, a sinhazinha do momento, decidiu-se por fazer vir da capital o chamar o médico de sua família e pôs-se a arguir até o que o sr. seu pai tirasse o médico da capital chamando-o sem um propósito claro.
Porque, de bacharel que era, desbancou-se da capital para atender ao pedido do coronel que por sua vez atendia a birra da filha, ninguém sabia ao certo. Talvez por uns bons vinténs. Mas o certo é que a sinhazinha fez vir da capital o dr. Bruno Loureiro de Menezes, dr. Menezes, por certo.
Chegando, mal descansou, foi-se a examinar o seu Zé, já que não havia tempo a perder. Não tinha ouvido falar de caso como esse em toda a medicina. Toda a medicina porque dr. Menezes estudou no Recife e no Recife se sabe do mundo todo.
Diga “a”, olhe para baixo, olhe para cima, sente-se aqui, martelinho no joelho, quantos dedos têm aqui, estetoscópio no peito, coração bom, tudo certo com o pulmão. O seu Zé estava era de bronca com esse doutorzinho de tanto que lhe examinava. Dissera. Vira a pedra, a pedra do tempo, vira tudo, estava feito, não tinha conversa. Não era de falastério e nem de trolóló. Era sujeito sério, de pegar na enxada, de enfrentar o batente e não queria nenhum dr. Menezes mexendo com ele.
Nesto disse que dona Quiqui disse que o padre disse que a sinhazinha disse que o coronel disse que o avô dele dizia que a pedra tinha sido colocada lá há muito tempo. O avô do coronel dizia que há muito muito tempo o tempo tinha resolvido que era preciso contar todo o tempo em pouco tempo para alguém e que assim o tempo tinha se feito pedra com autorização do universo e que de vez em quando o tempo contava essa mesma história para que a humanidade pudesse não se perder tanto, mas que a pedra do tempo tinha acabado numa caverninha perdida no meio do Rio Grande do Norte por engano. A pedra por sua vez era muito sem paciência e preguiçosa e, como já tinha contado a história para o seu Zé naquele século, ninguém no Recife e assim ninguém mais no resto do mundo soube da história do tempo todo, o tempo completo, todo o tempo e o mundo se perdeu na modernidade.
 

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