Não
era só uma pedra. Era a pedra do tempo. Qualquer um que passasse
pela tal pedra podia ver o tempo. Não o tempo do céu, não o tempo
do relógio, mas o tempo. O tempo como um todo, sem segundos, nem
milésimos, nem milênios, nem minutos, sem momentos nem instantes,
nem grandes momentos nem pequenos instantes, todo o tempo, o tempo
inteiro.
José
Evaristo Machado, o seu Zé, que não era bobo nem nada, o cara mais
esperto de sua cidadezinha no interior do Rio Grande do Norte,
resolveu que aquilo que ele tinha visto numa caverna perto de sua
casa não podia ficar escondido mas não podia ser revelado. Ele vira
tudo sem entender nada, vira a babilônia, vira o fim do mundo, vira
o início de tudo e o meio do nada.
Já
Ernesto Silveira da Silva, o Nesto, achava que tudo aquilo não
passava de balela mas tinha visto a pedra e não tinha visto nada.
Mal sabia ele que pedra que é pedra não é pedra para qualquer um
não, para uns é pedra e para outros é pedra do tempo. Para outros
ainda é mineral, mas nesse caso só para os "dotô".
Aquilo
já estava virando era maluquice. Quitéria de Farias Moreira
Machado, dona Quiqui, mulher do seu Zé, disse que não tinha pedra
nenhuma e que seu marido depois que perdera o filho em briga de
famílias vinha vendo de tudo, de mula-sem-cabeça a saci-pererê,
passando por essa pedra. Só que essa tal dessa pedra ele não
largava de mão, não parava de falar nunca.
Mas
Zé tinha certeza do que dizia. E o que dizia era que a pedra tinha
sido de reis e rainhas, caciques e pajés. E dizia também que ela
não tinha ido parar ali por causa de seu ninguém. Ela tinha ido
para lá porque queria, de vontade própria, de caso pensado. E se
ela lá estava e se tinha ele tinha visto o que vira era porque tinha
alguma coisa nisso. Não haveria de ter visto tudo se houvesse de ter
visto tudo.
Tanto
fez, tanto falou, que chamaram o padre Pedro. Padre Pedro Pitanga
Pereira ou Pedro Pitanga Pereira, o padre, como queiram, dizia ele.
Um padre sensato que sabia que seus filhos precisavam de uma mãozinha
de quando em vez.
Chegado
o padre disseram-lhe que o Zé não estava assim muito bem do coco
não. Andava dizendo umas coisas e não falava coisa com coisa. Pois
bem, foi o padre Pedro bater um papo com o Zé para ver o que
passava-lhe pela cabeça. Conversa vai, conversa vem. Foram umas boas
horas com todo mundo se mordendo de curiosidade para saber o que que
o Zé tinha na caixola.
E
não é que o padre saiu-se de lá certo de que realmente o Zé
estava dizendo a verdade, de que realmente vira tudo e ainda de que
Deus havia querido que ele soubesse sabe-se lá por que motivo que o
Zé soubesse o que agora sabe.
Convencida
de que aquilo só podia ser sandice. Maria Fernanda Borges de Aragão
e Castela, a sinhazinha do momento, decidiu-se por fazer vir da
capital o chamar o médico de sua família e pôs-se a arguir até o
que o sr. seu pai tirasse o médico da capital chamando-o sem um
propósito claro.
Porque,
de bacharel que era, desbancou-se da capital para atender ao pedido
do coronel que por sua vez atendia a birra da filha, ninguém sabia
ao certo. Talvez por uns bons vinténs. Mas o certo é que a
sinhazinha fez vir da capital o dr. Bruno Loureiro de Menezes, dr.
Menezes, por certo.
Chegando,
mal descansou, foi-se a examinar o seu Zé, já que não havia tempo
a perder. Não tinha ouvido falar de caso como esse em toda a
medicina. Toda a medicina porque dr. Menezes estudou no Recife e no
Recife se sabe do mundo todo.
Diga
“a”, olhe para baixo, olhe para cima, sente-se aqui, martelinho
no joelho, quantos dedos têm aqui, estetoscópio no peito, coração
bom, tudo certo com o pulmão. O seu Zé estava era de bronca com
esse doutorzinho de tanto que lhe examinava. Dissera. Vira a pedra, a
pedra do tempo, vira tudo, estava feito, não tinha conversa. Não
era de falastério e nem de trolóló. Era sujeito sério, de pegar
na enxada, de enfrentar o batente e não queria nenhum dr. Menezes
mexendo com ele.
Nesto
disse que dona Quiqui disse que o padre disse que a sinhazinha disse
que o coronel disse que o avô dele dizia que a pedra tinha sido
colocada lá há muito tempo. O avô do coronel dizia que há muito
muito tempo o tempo tinha resolvido que era preciso contar todo o
tempo em pouco tempo para alguém e que assim o tempo tinha se feito
pedra com autorização do universo e que de vez em quando o tempo
contava essa mesma história para que a humanidade pudesse não se
perder tanto, mas que a pedra do tempo tinha acabado numa caverninha
perdida no meio do Rio Grande do Norte por engano. A pedra por sua
vez era muito sem paciência e preguiçosa e, como já tinha contado
a história para o seu Zé naquele século, ninguém no Recife e
assim ninguém mais no resto do mundo soube da história do tempo
todo, o tempo completo, todo o tempo e o mundo se perdeu na
modernidade.
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